Os 20 dias que minhas gêmeas ficaram na neonatal entre a vida e a morte

Os 20 dias que minhas gêmeas ficaram na neonatal entre a vida e a morte

Mãe de UTI – Uma fase difícil, e ao mesmo tempo necessária na vida de muitas mães.

Algumas histórias terminam bem, outras nem tanto….

Vou contar um pouco da história da minha gravidez e da minha luta durante 20 longos dias no hospital.

Se você estiver passando por isso, espero que esse meu relato ajude você a ter forças para vencer essa batalha.

Se você for passar, espero que esse relato ajude você a se preparar um pouco, pelo menos psicologicamente.

Não vai ser fácil, mas acredite vai passar…

Leia também:

Como eu consegui engravidar de gêmeas

Eu tinha pressa de engravidar. Estava com 31 anos, não era mãe ainda e minha irmã Janaina logo precisaria da doação de um rim. Com toda certeza, eu já sabia que das 6 irmãs, provavelmente eu seria a doadora. Ser mãe, e de preferência de dois filhos, é a exigência dos médicos em casa de doador vivo.

Meu marido era vasectomizado e resistia um pouco em ser pai outra vez. E esse era meu dilema, queria e precisava ter um filho o quanto antes. Pois, a qualquer momento poderia chegar a hora da minha irmã precisar do rim. E após a doação, uma gravidez pra mim poderia ser de muito risco.

Lembro que numa consulta onde eu “especulava” sobre a doação, a médica dela me disse: Elen, você não é mãe ainda, se você quer realmente ajudar sua irmã, vou te dar um conselho: Vá e engravide, aproveite e tenha 2 bebês de uma vez (risos)”. 

Num certo dia, meu marido aceitou a ideia de ser pai outra vez. Mas, as chances de gravidez eram minimas em caso de reversão de vasectomia. Foi então que conhecemos a Fiv (Fertilização In Vitro).

Fizemos o tratamento e decidimos implantar 2 embriões para aumentar as chances de gravidez. E por ironia do destino, na 1ª tentativa o resultado foi de uma gravidez gemelar. 

Eu sempre desejei uma menina e para minha felicidade o ultrassom resultava em 2 menininhas.

E como eram gêmeas diferentes, escolhemos os nomes de Alice e Isabela.

Sobre a minha gestação

Apesar de ser mãe de 1ª viagem, li muito pouco a respeito de como era esse tipo de gestação. E nem me atentei muito para os riscos de prematuridade em casos de gêmeos.

Minha gravidez até que foi tranquila, enjoei apenas 1 vez. E os sintomas que mais tive foram azia durante toda a gestação, sede excessiva e dor de estômago devido a gastrite que eu sempre tive.

Como já sabia que em toda gravidez devemos fazer os preparativos o quanto antes. Na 20ª semana eu já tinha providenciado tudo: o enxoval, a decoração do quarto, mala da maternidade, compra dos acessórios etc. E na 27ª semana de gestação, lá estava eu correndo atrás de tudo e subindo em cadeiras para pregar bexigas no meu chá de bebê. Até ai eu estava muito bem.

No dia seguinte depois do chá de bebê, minha gravidez começou a tomar outro rumo. As meninas estavam crescendo e meu biotipo não comportava muito 2 bebês na barriga. A pressão delas em cima do meu estômago era tanta, que a dor era muito intensa. Nas semanas seguintes, as idas ao hospital começaram a ficar frequentes e eu só ficava deitada, praticamente sem comer nada.

35 semanas da minha gestação gemelar
35 semanas de gestação (1 semana antes do parto)

O parto e a dor da separação

Com todas as dificuldades, consegui chegar a 36 semanas e meia (o que é muito bom em caso de gêmeos) e na madrugada do dia 05/08/2015, uma das bolsas se rompeu. No hospital foi constatado apenas 1 dedo de dilatação. Eu queria muito parto normal e tinha a opção de induzir. Mas, como consequência o 2º bebê poderia entrar em sofrimento. Então, eu não tive escolha a não ser aceitar a cesariana.

O parto foi rápido e sem nenhuma complicação, mas a triste notícia veio quando eu soube que as minhas filhas teriam que ficar na UTI Neonatal por uns dias. Segundo a enfermeira, o motivo era apenas o peso baixo delas. Alice nasceu com 1655 kg e a Isabela com 1855 kg.

Mesmo com efeito da anestesia em meu corpo, podia sentir muito a dor da nossa separação. Não tive o primeiro contato, não senti o cheirinho delas. E não poder amamentar, era muito crueldade para mim que tinha passado tantos meses preparando os seios para esse momento tão mágico da maternidade.

Meu dia a Dia como mãe de UTI

No 2º dia, consegui levantar e fui até a Neonatal. Afinal, eu ainda não tinha conhecido elas. E pra mim, foi um grande choque quando vi aqueles bebês tão pequeninhos e indefesos ali, entubados e cheio de fios por todos os lados dentro de uma incubadora.

Não conseguia acreditar que aqueles bebezinhos eram os mesmos que eu havia carregado durante 9 meses na barriga. A Alice principalmente, mais parecia um passarinho do que uma recém-nascida. E eu chorei muito ao saber que não poderia carregá-las e nem amamentá-las.

Pude observar que através da sonda, elas se alimentavam de leite artificial. O hospital era novo e não tinha banco de leite. Então, rapidamente eu providenciei uma “bombinha” para estimular a descida do meu leite.

No mesmo dia, descobri que as meninas também tinham infecção e que o caso da Isabela era um pouco mais complicado, ela estava com meningite. Eu tinha pressa de ir embora, mas agora, ninguém mais tinha uma previsão do tempo que elas ficariam ali.

Eu fiquei sem ação, e já não sabia que rumo tomava, estava totalmente destruída por dentro.

A primeira vez que carreguei elas no colo

No 3º dia, meu leite já estava começando a descer. E eu ia várias vezes no lactário. Eu queria muito que elas bebessem do meu leite, pois, eu acreditava que dessa forma elas iriam sarar mais rápido. Era inverno e estava muito frio, o corte da cesárea latejava e eu mal conseguia repousar. Eu tinha muito cansaço, desconforto e pra piorar minha situação estava com prisão de ventre, mas eu não pensava em mim. Estava disposta a fazer tudo por elas, não me importando com o sacrifício.

Ficava praticamente o dia todo dentro da Neonatal, observando elas na incubadora e a primeira vez que me permitiram carregar elas no colo para amamentar…nossa! a sensação foi uma das melhores que tive durante toda a minha vida. 

Com toda minha inexperiência, coloquei a Isabela em meu colo e ela era tão frágil que dava até medo de “quebrar” ela. Elas ficavam só de fraldinha, aquecidas pelo calor artificial da incubadora. Então, ela rapidamente procurou o peito e começou a mamar, em seguida me ajudaram a colocar a Alice no outro seio e da mesma forma ela também mamou com muita sede o meu leite.

Elas não chegaram a nascer totalmente prematuras. Por esse motivo, já sabiam mamar. No entanto, elas não podiam “sugar” por muito tempo, devido ao risco de perderem mais peso. E só uma Mãe de UTI sabe, o quanto é sacrificado o ganho de alguns gramas nos bebês que ficam na Neonatal.

Eu recebi alta e me pediram para deixar o hospital, disseram que eu poderia ficar lá 24 hs. se quisesse, mas, não internada. O problema é que eu morava na cidade vizinha e era difícil ficar indo e voltando todos os dias.

Fui embora, e quando cheguei em casa, a sensação era de muito vazio. A casa que antes era tomada pela alegria dos preparativos para a chegada delas, agora estava totalmente solitária e triste. Não era isso que eu havia imaginado em toda a minha gestação.

No dia seguinte, voltei e pedi que me alugassem um quarto, eu estava disposta a pagar se preciso fosse. Só para poder ficar o tempo todo com elas. O problema é que o hospital não tinha essa disponibilidade, aliás, quase todos os hospitais não permitem que a mãe fique internada quando seus bebês estão hospitalizados.

Mas, para minha sorte, um “anjo”, que trabalhava ali, sensibilizado com minha situação, me arrumou um quarto e disse que eu poderia ficar. No entanto, se faltasse vaga para outra gestante eu teria que sair. E assim eu fui ficando…

Isabela na UTI Neonatal
Isabela na UTI Neonatal

Minha rotina como mãe de UTI no hospital

Cada dia ali naquele hospital era uma agonia, de manhã saia o resultado dos exames. Mas, eu passava a noite praticamente em claro pensando nisso. Dia após dia, a noticia era sempre a mesma, “as bactérias estão aumentando e a situação delas está se agravando”.

Estavam no antibiótico, mas não estava fazendo efeito. Meu Deus! como era difícil ouvir isso dos médicos, e a cada minuto que passava o medo que elas fossem embora tomava conta de mim. Nessas alturas, eu já nem lembrava da dor da minha cirurgia, eu amamentava quando me deixavam, dava um tempinho e corria pro lactário para tirar mais leite e deixar reservado para elas mamarem no copinho.

Todas as vezes que eu fazia “canguru” com elas, eu aproveitava e fazia também minhas preces. Pra mim, essa hora era mágica, eu sentia Deus ao meu lado o tempo todo.

Quando liberaram a amamentação exclusiva, eu passei a dar mama pra elas de 3 em 3 horas. Me pediram para dar durante o dia e a noite, e se eu quisesse, de madrugada eu podia descansar que as enfermeiras davam a fórmula. Mas, como eu não gostava muito que dessem esse leite pra elas, eu amamentava também de madrugada. 

vida de mãe de uti
Alice na UTI Neonatal

Mãe de uti não é de ferro

Lembro que um dia eu acabei surtando. E, é isso que acontece com a mãe de uti, é um misto de ansiedade, medo e fé. Eu sempre fui muito forte, e era essa imagem que eu tentava passar pra todos ali.

Mas, quando permitiam que eu abrisse a incubadora, eu tocava as suas mãozinhas e conversava muito com elas. Eu sabia que elas me ouviam, pois, sempre mudava a expressão em seus pequeninos rostos.

E quando aquilo tudo era muito forte pra mim, eu ia para o quarto e chorava muito até descarregar toda a tensão do meu corpo.

Uma das partes mais duras dessa minha vida de mãe de uti, foi o exame de liquor que tinha que fazer na Isabela (liquido retirado da coluna sempre que uma pessoa tem meningite).

A médica me pedia para sair quando ia fazer o procedimento, mas eu ouvia o choro e Deus….como é triste ouvir o choro do seu filho e não poder fazer nada…!

Os dias foram passando, só que parecia que eu estava ali há meses e a falta de previsão de alta me matava aos poucos. Meu marido sempre ia nos visitar e também sofria muito. Pois, ele não podia acompanhar a evolução delas o tempo todo como eu.

Outras mulheres, mães de prematuros extremo, dividiam a neonatal comigo. Nenhum bebê ali tinha infecção como as minhas gêmeas. Em compensação esses bebês não sabiam mamar pelo tempo que nasceram. E cada mãe ali, sofria por um motivo diferente.

 Ir para o quarto – o sonho de toda mãe de UTI

As coisas começaram a melhorar, e após 10 dias fizeram novos exames na Alice e não havia mais infecção. Eu agradeci a Deus por essa notícia, ela já poderia ir para o quarto, mas a Isabela ainda estava sendo tratada com o antibiótico.

Então, pedi que elas permanecessem juntas ali na Neonatal para que eu pudesse cuidar das duas ao mesmo tempo.

E no 15º dia, foi a vez de fazer o exame de liquor na Isabela novamente. Eu sabia que ela sofreria, mas era necessário para saber se ela tinha sido curada da meningite. E uma das melhores notícias da minha vida tinha chegado! ela estava curada e eu pude constatar o poder de Deus em nossas vidas.

Sempre fui muito religiosa, mas, foi nessa fase que a minha fé se fortaleceu ainda mais.

Fomos para o quarto, e era tudo que eu queria. Entretanto, eu já não tinha o apoio das enfermeiras como antes. Então tive que começar a me virar sozinha: amamentando, dando banho e tendo ajuda da minha família, é claro. Agora elas só precisavam chegar nos 2 kg para que pudéssemos ir pra casa.

Permanecemos no quarto por uns dias e no 20º dia a Isabela conseguiu chegar nos 2 kg, A Alice ainda estava com 1900 Kg. Mas, a médica decidiu dar alta, pois elas estão evoluindo muito bem.

Porém, meu desespero voltou quando me disseram que teriam que levar a Isabela para fazer exames na cabeça para saber se ela havia ficado com sequelas. Uma vez, que isso é muito comum em casos de meningite. O exame era fora do hospital e pediram que eu fosse junto.

Eu estava “morrendo de medo” e durante todo o caminho eu fui rezando…

E mais uma vez minhas preces foram atendidas, não havia ficado sequelas! E nossa missão naquele hospital tinha acabado.

gêmeas sai da neonatl
Alice e Isabela no dia da alta no hospital

Em casa – alegria e muitos desafios

Eu sabia que chegando em casa não seria nada fácil.

Durante os primeiros 7 meses tive a ajuda de uma pessoa, e quando podia contava com a ajuda de alguns familiares. Tivemos muitos momentos felizes, mas, se eu disser que foi fácil estarei mentindo. Neonatal costuma deixar traumas em bebês.

E elas sempre foram muita agitadas, ansiosas e mesmo com ajuda eu não dava conta. Nunca tive tempo de passar por alguma avaliação médica e muitos me criticavam por viver estressada. Mas, a verdade é que só eu sabia que passava por uma depressão pós-parto. Infelizmente, Neonatal deixa sequelas também na Mãe de UTI.

A Isabela tinha muito problema para dormir e não era pra menos. Ela foi a que mais sofreu lá… e após 1 ano de tantas dificuldades e muitos desafios as coisas começaram a melhorar e eu finalmente comecei a curtir o lado bom da maternidade.

mãe de gêmeos prematuros
Eu, Isabela e Alice. Primeiros dias em casa

De mãe de UTI a doadora de rim

Passado 2 anos do nascimento delas, chegou o momento de doar o rim para minha irmã. As meninas eram muito bebês ainda e quase sempre estavam no meu colo.

Nessa época, eu cuidava delas contando apenas com a ajuda do meu marido e dessa minha irmã sempre que ela podia. A cirurgia era considerada de grande porte e eu precisaria de ajuda por pelo menos uns 2 meses.

Minhas outras irmãs se comprometeram a ajudar, mas ainda sim, para mim era muito difícil a ideia de me separar delas por um dias. E principalmente, não poder cuidar delas.

Eu não estava preparada psicologicamente, mas eu era a única 100% compatível. Minha irmã já estava muito debilitada por causa da hemodiálise. Então, mesmo com medo eu doei, e graças a Deus deu tudo certo.

transplante renal
Eu e minha irmã Janaina um dia depois do transplante

Muitas vezes, a gente não compreende as coisas que acontecem em nossas vidas. Afinal, ser Mãe de UTI ou ser Mãe de Prematuro, é muito sofrimento.

[wp_ad_camp_3]

A gente sofre, porque acha que essa fase nunca vai passar, mas ela passa. E acredite, Deus tem um propósito para cada um de nós, Ele me permitiu ter gêmeas, pois, sabia que eu seria a doadora e após a doação não poderia ter filhos.

Lembro que quando eu e minhas filhas deixamos o hospital, uma das enfermeiras que mais acompanhou o caso delas, me perguntou:

Elen, você acredita em Deus? E eu respondi, o que mais fiz aqui nesse hospital foi rezar!

E ela me disse…pois então, agradeça muito a Ele, pois a cura das suas meninas foi um milagre.

Então, me lembrei da consulta que tive com a médica da minha irmã. E quando ela disse….

“…se você quer realmente ajudar sua irmã, vou te dar um conselho: Vá e engravide, aproveite e tenha 2 bebês de uma vez”.

Eu tive a certeza que tudo já estava escrito!

Tags: | | |